A Inteligência Artificial já entrou na escola. Está no celular do estudante, no computador do professor, na preparação de atividades, nas pesquisas e na produção de textos. Diante dessa realidade, talvez seja pouco produtivo discutir simplesmente se devemos ser a favor ou contra a IA. Existe uma pergunta anterior e filosoficamente mais importante: o que acontece conosco quando uma máquina passa a realizar parte do trabalho intelectual que antes precisávamos fazer?
A questão é contemporânea, mas o problema filosófico é antigo.
Kant e a coragem de pensar
No século XVIII, Immanuel Kant refletiu sobre a capacidade humana de conquistar autonomia intelectual. Em seu conhecido texto sobre o Esclarecimento, a passagem da “menoridade” para a autonomia depende da decisão e da coragem de utilizar o próprio entendimento.
A pergunta de Kant permanece atual: quem são os “tutores” que podem nos impedir de pensar autonomamente? É difícil encontrar questão mais adequada para o nosso tempo.
Durante séculos, pensar significou enfrentar determinadas dificuldades: ler, interpretar, errar, reformular uma ideia, procurar argumentos, escrever, apagar e escrever novamente. Hoje, diante de uma pergunta, podemos simplesmente digitá-la em uma ferramenta de Inteligência Artificial. Em segundos surge uma resposta organizada, às vezes melhor redigida do que aquela que conseguiríamos produzir naquele momento.
Isso é extraordinário. Mas também exige cuidado.
Quando a facilidade começa a substituir o pensamento?
Imagine um estudante que precisa escrever sobre democracia. Ele pode pesquisar o significado do conceito, ler diferentes autores, organizar argumentos e construir uma conclusão. Também pode solicitar à Inteligência Artificial: “faça um texto sobre democracia”.
Nos dois casos haverá um texto. Mas será que houve aprendizagem nos dois casos?
Essa diferença é fundamental. Escrever não é apenas colocar palavras numa página. Durante a escrita, selecionamos ideias, estabelecemos relações, percebemos contradições e organizamos o próprio pensamento.
Orientações internacionais sobre IA generativa na educação têm defendido uma abordagem centrada no ser humano: a tecnologia deve ampliar capacidades intelectuais, e não eliminar as oportunidades de desenvolver raciocínio, julgamento e autonomia.
O problema não é usar Inteligência Artificial
Seria um erro concluir que devemos simplesmente afastar a IA das escolas. A história da educação está repleta de tecnologias que modificaram nossa relação com o conhecimento: escrita, livros impressos, calculadoras, computadores, internet e smartphones.
A Inteligência Artificial pode igualmente se transformar em instrumento poderoso. Um estudante pode pedir uma explicação diferente sobre um conceito que não compreendeu. Pode comparar argumentos, receber perguntas para revisar uma matéria ou solicitar exemplos.
Um professor pode utilizá-la para planejar atividades, adaptar materiais, elaborar questões e encontrar novas maneiras de explicar determinado conteúdo.
A diferença está entre utilizar uma ferramenta para pensar melhor e utilizar uma ferramenta para não precisar pensar.
Essa distinção deveria ocupar o centro da discussão educacional.
A nova tarefa do professor
Talvez a Inteligência Artificial não diminua a importância do professor. Talvez aconteça exatamente o contrário. Quanto mais fácil for obter uma resposta, mais importante será aprender a julgar a qualidade dessa resposta.
O estudante precisará perguntar: isso é verdadeiro? O argumento é consistente? Existe outra interpretação? Quais fontes sustentam essa afirmação? Estou concordando porque compreendi ou apenas porque a resposta parece convincente?
É nesse ponto que a Filosofia ganha uma atualidade impressionante. Filosofar nunca significou simplesmente acumular respostas. Significa aprender a perguntar, argumentar, duvidar, estabelecer critérios e examinar aquilo que aparentemente é evidente.
A IA consegue fornecer uma resposta. Mas a responsabilidade de examiná-la continua sendo nossa.
Os novos tutores
Kant viveu muito antes dos smartphones, das redes sociais e dos algoritmos. Seria inadequado simplesmente transportar suas conclusões para o século XXI como se nada tivesse mudado. Sua pergunta sobre autonomia, entretanto, permanece poderosa.
Os “tutores” contemporâneos talvez não sejam apenas pessoas ou instituições. Podem ser também sistemas que escolhem o conteúdo que aparece em nossa tela, algoritmos que recomendam aquilo que provavelmente desejamos assistir e ferramentas às quais começamos a delegar nossas decisões intelectuais.
O perigo não está simplesmente na existência dessas tecnologias. Está na possibilidade de nos acostumarmos tanto com respostas prontas que progressivamente percamos o hábito de formular nossas próprias perguntas.
Uma escola para a era da IA
Proibir indiscriminadamente provavelmente não resolverá o problema. Aceitar tudo sem critérios também não. Precisamos ensinar a usar a Inteligência Artificial com autonomia intelectual.
Isso significa permitir que o estudante utilize a tecnologia, mas exigir que compare, questione, justifique, verifique e reconstrua as respostas recebidas. Significa também preservar momentos nos quais o aluno precisa enfrentar sozinho o esforço intelectual necessário para aprender.
A escola do futuro não deveria formar estudantes capazes apenas de produzir boas respostas com Inteligência Artificial. Deveria formar pessoas capazes de perceber quando uma resposta está errada, incompleta, manipuladora ou intelectualmente pobre — mesmo quando foi apresentada de maneira convincente por uma máquina.
A pergunta que permanece
A Inteligência Artificial provavelmente continuará evoluindo. Teremos ferramentas mais rápidas, mais precisas e capazes de realizar tarefas que hoje ainda consideramos exclusivamente humanas.
Isso torna a Filosofia menos necessária? Parece ocorrer justamente o contrário. Quanto maior for a capacidade das máquinas de produzir respostas, maior será nossa responsabilidade de formar pessoas capazes de fazer perguntas.
Talvez a grande questão de nosso tempo não seja simplesmente se as máquinas conseguirão pensar como seres humanos. Antes disso, precisamos perguntar: diante de máquinas cada vez mais capazes de pensar conosco, os seres humanos continuarão dispostos a pensar por si mesmos?
O tema dialoga com a reflexão de Immanuel Kant sobre Esclarecimento e autonomia intelectual e com debates contemporâneos sobre o uso responsável da Inteligência Artificial na educação.
Orientações da UNESCO sobre IA generativa na educação →Este texto é um artigo de opinião. As considerações e reflexões expressas são de responsabilidade do autor.
