Ao cair da noite do dia 09 de maio de 2015, faleceu Irmã Antonieta Delogu, missionária italiana cujo nome de batismo era Mariangela Delogu. Natural de Scano Montiferro, uma pequena vila na região da Sardenha, na Itália, Antonieta foi missionária no Brasil por mais de 40 anos, dedicando sua vida aos mais pobres e necessitados.
Nascida em uma família simples, desde os quatro anos já demonstrava ter ideias firmes e uma profunda vocação religiosa. Seu sobrinho, Nanni Delogu, lembra com carinho que ela sempre teve clareza do caminho que queria seguir. Quando ainda era adolescente, com o apoio da família e a intercessão do pároco local, Nonnu Mannu, ingressou na ordem das Missionárias Filhas de Jesus Crucificado, fundada por Padre Salvatore Vico em Tempio Pausania, na Sardenha. Ali fez seus votos e adotou o nome religioso de sua mãe, Mariantonia.
Irmã Antonieta — meses antes de sua morte.
Após anos dedicados ao cuidado de órfãos nas cidades de Tempio e Olbia, e inspirada pelo espírito renovador do Concílio Vaticano II, Irmã Antonieta concluiu o ensino médio e formou-se professora. Com coração missionário, pediu então para ser enviada ao Brasil, onde a congregação iniciava uma nova missão. Após uma longa e exaustiva viagem de vinte dias por mar, chegou ao Maranhão.
Instalou-se na cidade de Peritoró, que na época ainda dava seus primeiros passos rumo ao desenvolvimento. Fundada oficialmente em 1994, Peritoró já existia como povoado há décadas, situado às margens da BR-135, sendo um ponto de passagem importante e local de vida simples e rural. Foi nessa realidade que Irmã Antonieta se inseriu, inicialmente alugando uma pequena cabana, que com o tempo foi transformada em capela. Sua atuação evangelizadora e social teve um impacto profundo na vida do povo.
Ela se destacou por sua coragem e fé inabalável. Enfrentou os poderosos, acolheu os mais pobres e desassistidos, percorreu florestas e atravessou rios para levar o evangelho às comunidades mais isoladas. Acompanhou de perto os conflitos agrários da região e se posicionou firmemente ao lado dos camponeses e trabalhadores. Por sua atuação, foi ameaçada de morte diversas vezes, mas nunca cedeu ao medo. Seu lema era tirado da Carta aos Romanos: “Se Deus é por nós, quem será contra nós?”
Foi por causa de sua presença e influência que uma das vilas da região passou a se chamar Independência. Ali, ela lutou ao lado do povo por dignidade, justiça e fé. Chegou até a fazer amizade com antigos guerrilheiros e lideranças camponesas, usando essas conexões para pregar a liberdade cristã entre os oprimidos.
Além do trabalho pastoral, Irmã Antonieta também se dedicava à confecção de vestes litúrgicas para padres pobres da região, unindo seu talento artístico à sua missão evangelizadora. Mesmo com idade avançada, recusou-se a deixar o Brasil. Em 2007, após uma última viagem à Itália, seu médico tentou convencê-la a permanecer na Europa para cuidar da saúde. No entanto, ela respondeu com firmeza que seu lugar era entre o povo brasileiro e retornou a Peritoró.
Nos últimos anos de vida, sofreu uma queda que resultou na fratura do fêmur e do braço esquerdo. Enfrentou esse calvário com serenidade, nunca se queixando das dores e mantendo o sorriso no rosto para todos que a visitavam. Faleceu aos 85 anos, assistida com amor pela Superiora Adélia e pela comunidade que tanto amava.
Seu funeral foi celebrado na igreja Rainha de Todos os Santos, em Peritoró — nome que também é uma referência mariana presente em sua terra natal. A celebração contou com a presença de Dom Sebastião, do pároco Padre Gean Carlos, de numerosos sacerdotes e de uma multidão de fiéis. Na Itália, sua terra de origem, também foi celebrada uma missa em sua homenagem na paróquia de Scano Montiferro, onde nasceu.
Seu corpo foi sepultado na igreja matriz da cidade, com o apoio do bispo, do prefeito e dos paroquianos, como símbolo eterno de sua união com o povo de Peritoró. Ali, onde viveu sua missão com tanto amor, sua memória permanece viva, especialmente entre os mais humildes, que nela encontraram uma verdadeira irmã, amiga e protetora.
Hoje, o legado de Irmã Antonieta inspira gerações e é lembrado com carinho e respeito. Sua história se entrelaça com a de Peritoró, sendo símbolo de fé, resistência, coragem e amor incondicional ao próximo.
Um legado que continuou após sua morte
Meses após a morte de Irmã Antonieta, germinaram dois projetos que eternizariam o nome da missionária nas próximas gerações. Por meio de um projeto de lei, fruto do diálogo entre o poder público e a congregação à qual Antonieta havia feito seus votos religiosos, foi criado o Jardim de Infância “Irmã Antonieta Delogu”. A iniciativa teve como inspiração o catequista Ismael Silva, que, juntamente com o então Secretário de Educação da época, professor Jhonadson, articulou os primeiros passos do projeto. Posteriormente, a proposta foi acolhida e consolidada pela Secretária de Educação Cleia, durante a gestão do ex-prefeito Padre Jozias. Essa oficialização marcou a criação da primeira creche comunitária de Independência.
Paralelamente, o jovem Frei Leandro mobilizou ações e efetivou a criação da Casa da Caridade em Peritoró, um espaço dedicado ao acolhimento de pessoas em situação de vulnerabilidade social.
Nota: o material original informa que parte da história foi traduzida do italiano para o português a partir de texto de Nanni Delogu, sobrinho de Irmã Antonieta.
